07/04/2008 - Entrevista com John Carper

Entrevista com John Carper


1 - Fale um pouco de vc, idade, tempo de surf, tempo de shape, o que faz da vida... tipo um back ground...

Eu cresci em South Bay, CA e fui para uma surf trip em Maui no Hawaii assim que terminei o High School e nunca mais voltei pra casa, ate que um dia eu estava em Maui surfando sozinho quando no estacionamento da praia vi dois caras tirando suas pranchas de um carro alugado, eu nunca tinha visto pranchas tão pequenas, ate pensei que fossem “grandes” pranchas de surfar com o joelho (knee boards). Eu estava com a minha 10’2’’ “Donald Takayama 3 Stringer Jacobs” que era considerada a melhor prancha da época, os dois caras no estacionamento eram Nat Young e Bob McTavish treinando para o World Cup of Surfing em San Diego com as primeiras “shortboards” jamais vistas nos EUA, eles simplesmente quebraram as ondas naquele dia, aquela foi a primeira demonstração do que mais tarde ficaria conhecida como “Animal Surfing”.
Eu fiquei tão impressionado e um tanto envergonhado, que entrei na água somente para assistir eles surfarem, e apos aquela apresentação toda fui para casa em Lahaina, tirei toda laminação da minha prancha e fiz debaixo de uma arvore meu primeiro shape de uma “shortboard” que nem a que eles usavam. Com o novo shape pronto fui ate o centro da cidade e perguntei em uma loja o que eu precisava para laminar uma prancha, a vendedora não fazia idéia mas mesmo assim me vendeu uma resina para barco e uma “sure form” que seria usada para descascar o bloco.
Tenho a “sure form” ate hoje e a uso quase todos os dias, isto foi há 40 anos atrás e ainda tenho fôlego para fazer pranchas pequenas de alta performance, mas também posso fazer modernas pranchas de longboard. Meu objetivo e que todos que usem nossas pranchas possam testar ao maximo suas técnicas e habilidades pessoais, não importando o quanto a pessoa sabe surfar ou a sua idade.
Acho que fui o único de um grupo de amigos que era hábil e cuidadoso o suficiente para fazer pranchas, ou o único “louco” suficiente, mas logo no começo sempre fui muito dedicado e shapeava e laminava mais de 10 pranchas por dia durante muitos anos, exceto durante um ano e meio quando quebrei meu pescoço surfando e fiquei semi-paralisado durante todo esse tempo, e foi devido a benção divina e muita oração que eu não somente voltei a surfar como comecei a levar mais a serio o “business” de fazer pranchas, que pode não dar muito certo caso você realmente não ame surfar, mas o mais importante é meu relacionamento com Jesus, ele me ilumina em todos os meus caminhos e me orienta nos momentos difíceis.

Minha idade? (risos) Bom, sou experiente o suficiente para saber como fazer uma prancha, sou shaper a mais de 40 anos e a minha inspiração continua sendo a mesma, fazer as minhas pranchas e a dos meus amigos, e é isto que me motiva a continuar fazendo pranchas para diferentes surfistas de todo o planeta, a alegria de vê surfando.


2 – Sendo o Shane Dorian o principal surfista patrocinado pela JC Hawaii durante muitos anos, fale um pouco pra gente como começou esse relacionamento de sucesso com ele.

Eu ainda era BackShaper em Big Island no Hawaii quando Shane ainda era um pequeno garoto, naquela época eu já tinha uma boa experiência fazendo pranchas para a “Lighting Bolt”, mas naquela época éramos todos um bando de hippies curtindo a vida, “bons tempos” foram aqueles.
Eu morava em Hilo e tinha uma pequena fabrica chamada “Island Fusion”, nessa época Shane com 12 anos já estava se tornando famoso em Big Island como um super fenômeno do surf. Eu estava fazendo HSA (Hawaiian Surfing Association) campeonatos amadores de surf no Hawaii, quando em um campeonato vi Shane e outros garotos falsificarem a assinatura de seus pais para participarem do campeonato, foi entao quando desclassifiquei todos do campeonato devido aquela atitude. Sua mãe Susie então quando soube do acontecido, dirigiu mais de 1 hora e meia ate a praia e veio direto a mim dizendo que eu estava atrapalhando a carreira dele. Naquele dia falei para ela que Shane era provavelmente o único de todos os garotos que tinha talento e carisma o suficiente para um dia chegar a ser um top do surf mundial, e que ele teria que ter caráter e eliminar qualquer atitude que nem aquela que pudesse atrapalhar o seu futuro, expliquei a ela que quanto mais sucesso ao decorrer dos anos ele tivesse, mais cobrança e inveja as pessoas teriam dele, e ter caráter para tomar as decisões corretas na sua carreira era o que ele precisava para se tornar um homem honesto e integro, no qual ele se tornou. Na época ela não gostou muito do que eu disse e por muitos anos ela nem sequer olhava na minha cara.
Anos depois eu me mudei para o North Shore em Oahu e comecei a fazer pranchas por lá, Shane se mudou para lá também para terminar o 2nd grau e ficar mais perto do grande cenário do surf mundial no Hawaii. Comecei então a fazer pranchas para ele e assim conheci melhor a mãe dele, que me disse então que entendia o que eu tinha dito há ela anos atrás aquele dia no campeonato, e que acreditava em mim, pediu que eu cuidasse de Shane para que ele seguisse o caminho correto, a partir daquele dia nos tornamos muito próximos como uma família.
Naquela época Shane me via como a figura de um pai para ele, mas com o passar dos anos fomos nos tornando verdadeiros amigos, algumas vezes acho que ele e mais maduro que eu ate, e frequentemente sou seu “consultor de negócios” ajudando ele em seus contratos com patrocinadores.
Ele, Lisa (sua linda mulher) e neném Jackson ficam conosco todo ano durante o Triple Crown, gosto muito de surfar com ele porque ele sempre controla o seu “nível” de surf dependendo de com quem ele esta surfando, fazendo assim com que eu não me sinta um “prego” quando surfo com ele...(risos)
Eu já fiz centenas de pranchas para o Shane e temos um ótimo nível de comunicação entre shaper-surfista, ele e muito atento e sabe me explicar muito bem que precisa na prancha ou o que os outros “pro`s” estão usando, então assim posso estar sendo atualizando os meus designs. Ele não gosta muito de invenções e consegue sentir a essência da prancha em seus pés, buscamos sempre a simplicidade nos seus designs pois o surfista jamais deve perder a “integridade” com sua prancha, deve se uma “extensão” do seu corpo.
Eu tenho sido abençoado por atualmente possuir uma equipe que alem de grandes surfistas são acima de tudo pessoas excepcionais, caras como Shano, Pete Mel, Jesse Hines, Cheyne Cottrell, Sean Moody, Josh Hoyer e todos os outros, sao pessoas extraordinárias que eu vejo como uma família, para mim e um privilegio ser o shaper deles.

3 - Qual foi a ultima vez que esteve no Brasil e qual foi a impressão que teve do pais?

Faz 4 anos que estive no Brasil, adoro o pais e principalmente os brasileiros, o único problema e a comida que e muito boa! Eu não consigo parar de comer toda vez que vou ao Brasil, em minha primeira viagem ganhei 5kg em 3 semanas! Tenho bons amigos no Brasil e já fiz pranchas para quase todos os grandes surfistas brasileiros, adoro a musica e o jeito de ser e viver dos brasileiros, meus melhores empregados no Hawaii e EUA são brasileiros, me sinto em casa no Brasil e estou muito empolgado em estar iniciando um trabalho permanente no Brasil, pois agora terei muitas desculpas e razoes para ir ao Brasil varias vezes por ano, agora somente terei que aprender a me controlar quando vou a um “bar-b-que” (churrasco), pois no Brasil “is the best”!

4 - Fora o Hawaii , quais são os lugares que vc tem fabricas e como vc consegue manter o controle de qualidade em todos esses lugares ao mesmo tempo?

Tenho fabrica na Califórnia, Europa, Austrália e agora estou iniciando este grande projeto na América do Sul no Brasil. Com o passar dos anos fui me tornando cada vez mais atento e observador, e isto me ajuda para achar os mais talentosos profissionais em fabricação de pranchas em cada pais, com as novas maquinas CNC de shape e os novos programas CAD, agora e possível manter a integridade de todos os meus designs em cada pais, nos fazemos tantas pranchas para profissionais de todo mundo que eu posso criar modelos de pranchas que irão funcionar em qualquer tipo de onda e em qualquer lugar do mundo.
Gosto muito também de treinar as pessoas, fizemos vídeos para treinamentos de Shape (Shaping 101), Laminação (Glassing 101) e Pintura de pranchas (Airbrushing 101), estes vídeos instrucionais tem sido um grande sucesso, e raramente vou surfar sem que alguém reme ate a mim e me mostre uma prancha fabricada por causa destes vídeos, muitas pranchas começaram a ser fabricadas baseadas nesses vídeos, e muitas dessas pessoas agora trabalham atualmente no mercado, então estou acostumado a treinar shapers, laminadores e “airbrushers” para alcançarem o nível de exigência e qualidade da JC Hawaii.


5 - Sendo o Brasil um grande polo do surf mundial, por que somente agora vc decidiu tentar entrar no mercado brasileiro?

Eu já tive no Brasil algumas vezes e fiz algumas pranchas no passado, mas antes das maquinas CNC de shape e programas CAD eu sempre tinha de estar presente para shapear, e como viajo muito era difícil estar sempre presente, mas com a nossa nova tecnologia as linhas dos meus designs irão permanecer mesmo sem a minha presença, porem com esse novo projeto pretendo ir mesmo assim varias vezes por ano ao Brasil fazer pranchas.
A principal razão no qual estou entrando no mercado brasileiro agora e que o meu “Production Manager” e “Sander” nos EUA e Hawaii, Junior Mello que é do Sul do Brasil vai assumir a JC Hawaii no pais, ele tem sido o meu melhor profissional por muitos anos e um grande amigo, ele e considerado um dos melhores profissionais na arte de fazer pranchas no mundo e fez um excelente trabalho nos EUA, porem agora deseja voltar ao Brasil, e vai levar a JC Hawaii junto consigo, ele e a única pessoa no mundo que eu confio e sei que posso entregar esta grande responsabilidade de manter o mesmo nível de qualidade da JC Hawaii no Brasil.
Junior tem sido o meu Gerente de Produção por muitos anos e mesmo estando no Brasil vai voltar todo ano ao Hawaii para me ajudar com as pranchas dos profissionais que vão para o Tripple Crow of Surfing no North Shore de Oahu, onde moro e tenho a fabrica, ele pode fazer 20 pranchas perfeitas por dia e ainda fazer uma ou duas sessões de surf, o cara simplesmente não para! Mas o mais importante para mim e que alem da sua honestidade, ele busca sempre o melhor para garantir a máxima qualidade e design das nossas pranchas, e com ele no Brasil tenho certeza que teremos as melhores pranchas sendo feitas no pais.


6 - O povo brasileiro em geral e' muito exigente, vc pretende usar alguma estratégia diferente da que vc tem usado nos outros mercados?

Estamos entrando no Brasil com pranchas e também com confecção e acessórios para o surf, sei que o mercado brasileiro e muito exigente e por isso investimos em muito na qualidade de nosso produto, meu objetivo e o mesmo que em outros lugares, “Fazer a melhor prancha e entregar no prazo previsto”.
O Brasil possui muitos bons shapers, alguma das melhores pranchas do mundo são feitas atualmente no Brasil, e eu quero contribuir para aumentar ainda mais o nível de qualidade das pranchas no pais, os brasileiros conhecem e sabem identificar uma prancha de qualidade e eles sempre gostaram dos meus designs. Sempre troquei muitas experiências e converso bastante com os shapers brasileiros, principalmente quando vão para o Hawaii, eu fico impressionado e adoro o jeito como os surfistas brasileiros se preocupam e cuidam de suas pranchas, sempre são muito exigentes, e muito bom ter clientes assim.


7 - Vc fala alguma coisa em português?

“Não muito”. Eu falo um pouco de espanhol somente, mas no Brasil todos tentam me ajudar falando em inglês comigo, não é que nem na Franca, os brasileiros gostam de me ajudar por eu não falar quase nada em português, fico muito grato com isso, o povo brasileiro em geral e sempre muito amigável e receptivo.

8 - Poderia deixar uma mensagem para os nossos leitores?

Bom, estou muito feliz de iniciar este projeto no Brasil, fico muito contente de ver os surfistas “amarradões” quando estão sufando e pegam uma onda, dividir as ondas com os outros e sempre mais divertido do que querer pegar todas elas, pois você enche o coração de alegria vendo a alegria dos outros.


Deus abençoe a todos.

John Carper